
"...EXTERNAMENTE PARECEIS JUSTOS AOS HOMENS, MAS POR DENTRO ESTÃO CHEIOS DE HIPOCRISIA...” (Matheus, 23:28)
Hipocrisia vem do grego hypokhrinesthal, numa referencia aos atores de teatro. Significa que hypochrités é aquele que não é, por estar sob uma máscara. O hipócrita é um fingidor que, parafraseando Fernando Pessoa, finge tão completamente que chega a sentir que é verdade, a verdade que deveras mente. Nesse aspecto, uma episteme da hipocrisia em suas raízes gregas é pertinente: os gregos inventaram a escravidão, a tirania, a subjugação das mulheres, a institucionalização da velhice e o extermínio de nascituros deficientes, conforme a ideologia eugênica de Péricles. Quando a “Política” de Aristóteles ensinava que a Cidade faz parte das coisas naturais e que o homem é por natureza um animal político, deixou a subjacência do homem como animal político e também hipócrita. A própria política grega era incompatível com o “direito-de-todos”, porque a Cidade não era para todos. O próprio Aristóteles - em discretos rompantes de hipocrisia com xenofobia -alegava que mais valia a pena passar o dia com amigos e pessoas excelentes, do que com estrangeiros e recém-chegados. Aliás, nesse mesmo entendimento, uma cidade harmoniosa deve estar fundada numa etnia entre parentes e na comunhão cultural. Nesse sentido, não é difícil associar a hipocrisia à arte de dominar, até mesmo pelo discurso da justiça, conforme denunciava Trasímaco, ou mesmo no exercício burocrático da inquisição como exercício de verdades, para Kramer e Sprenger.Vem daí que a própria dogmática tem uma herança hipócrita na formação teórica da isonomia. Mesmo com a queda do Papado e com a instituição de poderes locais (que mais tarde se tornariam os estados modernos), a hipocrisia se estendeu até às universidades como instituições de legitimação do poder. Ora, o poder que se legitima está perfeitamente caucionado para punir e, hipocritamente, serve de caução para os não-puníveis, conforme a hipocrisia do estado forte de Jean Bodin, da pena como imperativo categórico em Kant e as teses do inimigo de Carl Schmitt, tudo ressurgido nos atos patrióticos da hipocrisia estadunidense. Segue-se que a hipocrisia tem sua própria lógica, mas que vem passando (des)percebida da preocupação dos juristas. Como não perceber o desapoderamento e a criação de débeis pela exclusão de direitos no platonismo rudimentar de inacessíveis direitos humanos? Como ignorar, desde Sutherland, o reino do anonimato que os crimes de colarinho-branco financiam, em detrimento do hipócrita sistema social que funcionaliza o castigo –Parson/Merton/Luhman- como necessidade do “papel socializatório”? Enfim, abrangente é o reino da hipocrisia e incontáveis são seus súditos, sempre fiéis e potentes. Restando pois, e também parafraseando Paul Topinard, toda sociedade tem os hipócritas que merece.
















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